• Vinicius Soares

2020: o pior ano da história do Cruzeiro (até agora)

Atualizado: Mar 31

O fracasso na Série B ilustra que o futuro do clube não será nada fácil


O ano de 2020 deveria ter sido marcado pela reconstrução do Cruzeiro por completo: o retorno à primeira divisão e a reestruturação do clube internamente. Porém, o que vimos acontecer na realidade foram erros sucessivos nos bastidores que culminaram no fracasso do time na Série B, fazendo com que em 2021, o ano do centenário, a equipe celeste dispute novamente a segunda divisão.

Foto: Uarlen Valério


Diretoria


Começaremos a analisar o por que do fracasso do Cruzeiro pelo principal culpado, a diretoria, ou melhor, as diretorias. Após enorme pressão causada pelo primeiro rebaixamento do clube, a chapa presidida por Wagner Pires de Sá foi retirada, e quem assumiu, de forma provisória, foram empresários cruzeirenses até às eleições, em maio, com o objetivo de tentar auxiliar na reorganização financeira da equipe.

Conselho gestor geriu o Cruzeiro até o fim de maio - Foto: Cruzeiro/Divulgação


No comando administrativo do Cruzeiro, o conselho gestor também era responsável pelo futebol, e para comandar o setor, Ocimar Bolicenho foi escolhido como diretor de futebol. Na curta passagem pelo clube, errou em quase todas as contratações, e vários jogadores contratados por ele foram desligados ao longo da temporada somente pelo aspecto técnico. Além dos erros na montagem do elenco, a manutenção de Adilson Batista como técnico significou um enorme atraso no desenvolvimento de um novo time, mas isso será abordado mais à frente.


Sem resolver de forma efetiva os problemas financeiros do Cruzeiro, o conselho gestor deu lugar a Sérgio Santos Rodrigues, eleito até o fim de 2020 - e que seria reeleito até o fim de 2023. O novo presidente teve de reformular o departamento de futebol por completo e, para isso, efetivou Ricardo Drubscky como diretor de futebol, o ex-jogador Deivid, como diretor técnico (e que seria transformado em diretor de futebol um mês após assumir o primeiro cargo), e Enderson Moreira, técnico com experiência na Série B.


Os graves problemas financeiros atrapalharam diretamente as tentativas de organização das finanças e do futebol. O não pagamento da dívida de R$ 5 milhões com o Al Wahda pelo volante Denílson, contratado em 2016, fizeram o Cruzeiro iniciar a Série B com menos 6 pontos. Além disso, o clube conviveu com salários atrasados durante toda a temporada, o que afetou o desempenho dos atletas significativamente, e com bloqueio de registro de novos jogadores, também por dívidas não pagas na FIFA.


Outro aspecto errôneo da diretoria foi a soberba de achar que o Cruzeiro teria facilidade para subir por ser uma grande equipe do futebol brasileiro, o que, historicamente, nunca aconteceu. Diretores que não se preocuparam com a perda de 6 pontos e com uma montagem de um elenco adequado, fizeram a torcida passar vergonha com postagens em redes sociais, como a de Léo Portela, ex-superintendente de relações institucionais e governamentais do Cruzeiro e deputado estadual.

Deivid, diretor de futebol do Cruzeiro na maior parte da temporada, mostrou sua incapacidade de encontrar atletas com nível de Série B ao contratar atletas que foram dispensados por não agregar tecnicamente. Alguns deles, inclusive, nem chegaram a estrear, como o meia Matheus Índio, que não conseguiu ser registrado pelo clube devido a um transferban, e não foi aproveitado posteriormente.


Uma das maiores críticas da torcida sobre Sérgio Rodrigues foi a prática de velhos hábitos de uma diretoria que sempre pregou o lema "Um Novo Cruzeiro". Diretores como Benecy Queiroz, há mais de 40 anos no clube, e que participou das gestões danosas anteriores, e Deivid, claramente incapacitado para o cargo que ocupa, são mantidos pelo mandatário apesar da enorme pressão dos cruzeirenses.


Por fim, as dívidas continuaram a não ser pagas, e novas surgiram de todos os lados: clubes, atletas, empresários, técnicos e até federações. Destacando aqui o caso de Dedé: contratado em 2013, passou 4 anos no departamento médico, e agora pede a rescisão de contrato pela justiça alegando condições de trabalho análogas a escravidão. Até o momento, a justiça negou o pedido do zagueiro.

Dedé sofreu com seguidas lesões no joelho - Foto: Vinnicius Silva / Cruzeiro


Futebol


Apesar de enorme parcela de responsabilidade dos dirigentes na situação do Cruzeiro, não podemos isentar de culpa os treinadores e jogadores. Incapacidade de técnicos e de atletas impediram também o retorno do clube à Série A, chegando a correr sério risco de rebaixamento à terceira divisão do futebol brasileiro.


O primeiro técnico da temporada foi Adilson Batista, nome histórico do clube, mas que não tinha trabalhos vitoriosos há 10 anos. Com ele, o Cruzeiro foi um fiasco no Campeonato Mineiro, estando fora da zona de classificação antes da parada pela pandemia de COVID-19. Além disso, a equipe perdeu o jogo de ida da 3ª fase da Copa do Brasil em casa, para o CRB, por 2 a 0. É notório que iniciar o ano de 2020 com Adilson significou um atraso na reconstrução da equipe, que sofria para ganhar os jogos contra equipes do interior, e no mata-mata nacional avançou nas duas primeiras partidas com empates decepcionantes.

Adilson Batista, demitido em março - Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press


No retorno do futebol, Enderson Moreira assumiu a missão de tentar reverter as críticas situações no Campeonato Mineiro e na Copa do Brasil, e não conseguiu. Mas, o principal objetivo era o acesso na Série A. A equipe começou com 3 vitórias nos 3 primeiros jogos e rapidamente eliminou a pontuação negativa da tabela. Porém, após o bom início, o Cruzeiro entrou numa descendente que culminou na demissão do treinador, deixando a equipe na zona de rebaixamento.

Enderson decepcionou em sua passagem - Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro


Nome extremamente criticado pela torcida, Ney Franco assumiu a equipe. 7 jogos, 2 vitórias, escalações muito contestáveis e um futebol pior do que o treinado por Enderson. Assim como Adilson, a contratação de Ney Franco atrasou a evolução do Cruzeiro na Série B, e pior: afundou ainda mais a equipe na zona de rebaixamento.

Ney Franco foi mais um nome do fracasso do Cruzeiro - Foto: Fernando Moreno/AGIF


Para tentar um milagre, veio Felipão. Com um contrato longo, a promessa de salários em dia e a possibilidade de contratações, o pentacampeão rapidamente tirou o Cruzeiro da zona de rebaixamento, e por algum momento, sonhou com a primeira divisão, mas a falta de ambição após o afastamento do Z-4, aliado a atrasos salariais constantes, minaram a arrancada da equipe. O clube terminou a Série B na 11º colocação com 49 pontos, a pior campanha de uma equipe grande na segunda divisão, e a segunda que não conseguiu o acesso logo no ano seguinte, a primeira foi o Fluminense, em 1998, que foi rebaixado à Série C.

Felipão salvou o Cruzeiro do rebaixamento - Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro


Os jogadores, por sua vez, também não se salvaram, com exceção de Fábio, Manoel e Sóbis; esses foram fundamentais para a sobrevida do Cruzeiro na Série B. Muitos atletas não entregaram o que era esperado. O caso mais chamativo é o de Marcelo Moreno: nome histórico no clube, chegou ainda na gestão Adilson Batista como o nome para 2020, mas decepcionou a todos e só marcou 3 gols na temporada.

Manoel e Rafael Sóbis foram fundamentais para o Cruzeiro - Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro


Futuro


As perspectivas para o futuro do Cruzeiro não são animadoras. Sem as receitas de uma equipe na primeira divisão, as dívidas para 2021 são maiores e, sem público devido à pandemia, o clube perde uma fundamental fonte de arrecadação. Nos bastidores, existe uma enorme briga política, já que, apesar do slogan "Um Novo Cruzeiro", as práticas são de uma diretoria arcaica, e em alguns pontos, semelhantes às anteriores que tanto lesaram o clube.


Para o futebol, André Mazzuco foi contratado como diretor de futebol, ex-Vasco e responsável por contratar nomes como German Cano e Martín Benitez, destaques do futebol brasileiro na temporada 2020. Uma característica importante do novo dirigente é garimpar o mercado sul-americano, o que pode trazer ao Cruzeiro bons nomes e que podem se transformar em fonte de receita através da venda destes valores.


O novo técnico será Felipe Conceição. Com bons trabalhos por América-MG e Guarani, chega com a missão de implementar conceitos modernos de jogo, mas precisará de respaldo, o que não acontece desde a saída de Mano Menezes, em 2019.


Por fim, uma mensagem de um torcedor que escreve este texto para os torcedores cruzeirenses: não deixem este clube gigante morrer. A história do Cruzeiro no Brasil e na América é enorme e nunca poderá ser esquecida. A torcida será fundamental para o reestabelecimento de um gigante. Não será fácil e não será rápido, mas precisamos estar do lado do clube para que ele não se definhe. Apesar de quem prega um discurso de um novo Cruzeiro, mas na prática são mais do mesmo, nós torcedores, somente nós, vamos conseguir levar o Cruzeiro ao lugar de onde ele nunca deveria ter saído.

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