• Bernardo Marchiori

O final de temporada na Inglaterra

Mais uma temporada no local do melhor futebol do planeta está perto de ser encerrada, mas continua cada vez mais intensa e emocionante.


Embora o Brasil seja conhecido como o "país do futebol" - principalmente pelas conquistas da seleção, pela fama de formar craques como ninguém e pelo papel que o esporte possui na cultura do povo brasileiro -, foi na Inglaterra que o esporte mais popular do mundo surgiu. E para fazer jus à sua vasta história, o futebol inglês tem os melhores campeonatos de todos. Não apenas na primeira divisão, mas também nas inferiores e nas copas nacionais.


Embora haja o "Big Six" (composto por Liverpool, Manchester City, Manchester United, Chelsea, Tottenham e Arsenal - os times que costumam ser mais competitivos), frequentemente nas temporadas uma equipe rouba a cena e faz uma campanha memorável. Até mesmo para os clubes de menor investimento a expectativa é alta, já que a dinamicidade e a rapidez, agregadas ao bom futebol praticado quase em totalidade, são fatores intrínsecos aos campeonatos ingleses. Afinal, não é em qualquer torneio que o campeão perde a invencibilidade para o time que terminou na vice-lanterna - como aconteceu em Watford 3x0 Liverpool.


Resumindo: o futebol na Terra da Rainha é apaixonante - e nessa temporada a história não foi diferente. O que aconteceu nas primeiras divisões e nas copas confirma esta tese de maneira bem explícita.


O campeão "inédito"

A comemoração do título. (Imagem: Divulgação/Twitter Premier League)

É fato que o Liverpool é um dos maiores clubes da Inglaterra. Mas a riquíssima história não foi refletida nos últimos anos, visto que os Reds não haviam conquistado a Premier League desde que ela fora formada, em 1992. Nesse meio tempo, o Manchester United ultrapassou o time do Noroeste inglês no total de títulos e se tornou o clube que mais vezes conquistou o campeonato.


Talvez pela traumática perda do título na temporada 2013-14, o espírito mudou e a competitividade passou a ser prioridade máxima. Contratações pontuais como as de Roberto Firmino, Virgil Van Dijk, Mohamed Salah e Sadio Mané, além da manutenção de peças já presentes como Jordan Henderson e a subidas e garotos da base como Trent Alexander-Arnold, o Liverpool se tornou uma equipe renovada e contou com a provável chegada mais importante: Jürgen Klopp. O alemão mudou completamente a forma de jogar de um time gigantesco.


Após alcançar a melhor campanha como vice-campeão da história (97 pontos - 1 a menos que o Manchester City - e apenas uma derrota), nenhum clube merecia mais o título que o Liverpool. E a resposta não foi diferente: campanha histórica com 99 pontos, campeonato conquistado ainda na 31ª rodada e dominância completamente absurda. Tudo isso no ano seguinte ao título na UEFA Champions League e no Mundial de Clubes da FIFA.


Mesmo que a parada pela pandemia do coronavírus tenha diminuído um pouco o ritmo frenético dos Reds, essa temporada esplêndida jamais será esquecida e o elenco certamente está eternizado no coração de cada torcedor do clube. Foi o 19º título inglês do Liverpool e o primeiro na era Premier League.


As decisões pelas vagas em competições europeias


Apesar do campeão Liverpool e do vice-campeão Manchester City terem se classificado com certa facilidade para a Liga dos Campeões, as outras duas vagas foram definidas apenas na última temporada, assim como as duas para a Liga Europa.


O Chelsea entrou na última rodada precisando apenas do empate contra o Wolverhampton para se garantir, já que os outros dois concorrentes (Manchester United e Leicester) se enfrentariam. A vitória por 2x0 foi mais do que necessária para os Blues, mas péssima para os Wolves, que perderam a vaga para a Europa League no critério do saldo de gols com essa derrota e com o empate do Tottenham com o Crystal Palace por 1x1. Ou seja, o empate nesse jogo garantiria tanto o Chelsea como o Wolverhampton nas respectivas competições continentais - mas não foi o que aconteceu.


No provável jogo mais esperado da rodada, o United bateu o Leicester por 2x0 (com direito à gol de Jesse Lingard) e voltarão a disputar a orelhuda mais desejada da Europa. Os Red Devils permanecem invictos na Premier League após a chegada do português Bruno Fernandes, enquanto a falta de profundidade no elenco dos Foxes foi fator determinante para o pouco-convincente fim do campeonato, já que terão que se contentar com a Liga Europa - mesmo que pareça exagero, a vaga na Liga dos Campeões era dada praticamente como certa antes da parada pela pandemia.

Bruno Fernandes: o símbolo da classificação do United para a Liga dos Campeões. (Imagem: Reprodução/Fox Sports)

O Sheffield, que conseguiu o acesso na temporada passada e foi a sensação dessa, ficou muito próximo de chegar na vaga, mas, para o nosso azar, ficou de fora.


Vale lembrar das possíveis opções restantes: caso o Chelsea vença a FA Cup, o Tottenham passará direto para a fase de grupos da Liga Europa e o Wolverhampton irá para as qualificatórias da mesma; caso o Arsenal vença, os Gunners estarão automaticamente na fase de grupos da Europa League e os Wolves não entram. Se os Wolves vencerem a atual edição da Liga Europa, se classificarão para a Liga dos Campeões automaticamente.


A chorada briga contra o rebaixamento


A tese de que time grande não cai pode ser falaciosa, mas a de que camisa pesa, certamente, não é. A milagrosa campanha do Aston Villa na reta final do campeonato confirma isso. Após vencer o Arsenal na penúltima rodada, o Villa conseguiu sair da zona de rebaixamento e empurrou o Watford, que perdeu por 3x2 para o mesmo Arsenal na última partida em partida dramática e terminou rebaixado.

Na última rodada, mesmo com a vitória do Bournemouth sobre o Everton por 3x1, a permanência no Z-3 e consequente queda não foram impedidas, graças ao empate do Aston Villa com o West Ham por 1x1.

Jack Grealish (centro) fez o gol da salvação do Aston Villa. (Imagem: Reprodução/The Washington Time)

O Norwich teve campanha tenebrosa - mesmo com alguns nomes que se salvaram, como Emiliano Buendía, Todd Cantwell e Teemu Pukki (que terminou o campenato em baixa, mas começou voando). Apenas 21 pontos, sendo nenhum após a retomada do futebol na Inglaterra e apenas um gol nesse período. Mesmo assim, tiveram bons jogos e venceram clubes da parte de cima, como o Manchester City e o Leicester, provando o argumento de como o futebol é bem-jogado na Terra da Rainha.


A igualmente emocionante Championship


A segunda divisão inglesa, naturalmente, não é tão midiática como a primeira, mas certamente segue o seu padrão emocionante e bem jogado dentro das limitações técnicas. Inclusive, certamente é mais disputado que a primeira divisão de diversos países.


Na temporada 2019/20, o que era esperado finalmente aconteceu: o Leeds United, clube tradicional na Terra da Rainha, foi o campeão e conseguiu a vaga para disputar a Premier League pela primeira vez desde a temporada 2003/04. Essa tão esperada conquista passa pelas mãos do principal responsável do feito: Marcelo Bielsa. O argentino, desejado por Messi no Barcelona, fez o time de meio de tabela da Championship praticar o melhor futebol da competição e, certamente, um dos melhores do país. Não foi por acaso que Pep Guardiola afirmou que 'El Loco' Bielsa é o melhor treinador do mundo.

Marcelo 'El Loco' Bielsa: o treinador que levou o Leeds ao título da Championship. (Imagem:Reprodução/Globo Esporte)

Na última rodada, o Brentford, que precisava vencer o quase rebaixado Barnsley, perdeu e viu o West Brom ficar com a vice-liderança, conseguindo subir direto junto ao Leeds. Por outro lado, o Brentford precisará vencer os playoffs de acesso, disputado com o Fulham, o Cardiff e o Swansea, para chegar à elite. O Nottingham Forest, que já venceu a Premier League e a UEFA Champions League, estava com a vaga encaminhada, mas foi goleado pelo Stoke e ficou de fora mais uma vez.


Os rebaixados foram o Hull City, o Wigan (perdeu 12 pontos por declarar falência, mas terá apelação ouvida no dia 31 de julho) e o Charlton.


As tão antigas copas nacionais


As duas principais copas nacionais disputadas na Inglaterra são a Carabao Cup (Copa da Liga Inglesa) e a F.A. Cup (Copa da Inglaterra).


A primeira, disputada ainda no início de 2020, sediou uma final entre o, até então, atual bicampeão Manchester City e o primeiro campeão da história da competição: o Aston Villa - que, curiosamente, tinha eliminado o time de garotos do Liverpool e brigou até a última rodada para não ser rebaixado. No fim, prevaleceu o valioso plantel do City, que se sagrou tricampeão com o placar magro de 2x1.


Já na Copa da Inglaterra, a competição futebolística mais antiga da história, o Big Six marcou presença quase integral nas semifinais. O Chelsea eliminou o Manchester United, em jogo que marcou a única derrota dos Red Devils desde a chegada de Bruno Fernandes, e o Arsenal, maior campeão da F.A. Cup, eliminou o atual campeão Manchester City. O dérbi de Londres prevaleceu sobre o dérbi de Manchester e os times da capital se enfrentarão na final, que será realizada no próximo sábado (01/08).

Duelo entre Lampard e Arteta - hoje os atuais treinadores dos respectivos times - se repetirá na final da FA Cup. (Imagem: Reprodução/Evening Standard)

No país em que surgiu o tão amado esporte não poderia haver uma representatividade maior além do melhor futebol do planeta. Embora as elites resumidas na primeira divisão sejam as mais acompanhadas em todos os países com liga nacional, as outras competições não devem ser desvalorizadas - principalmente pelo exemplo que a Terra da Rainha nos apresenta. Até os times que optam por jogar sem a bola, como o Burnley e o Sheffield por exemplo, conseguem atrair a atenção dos espectadores.


E quanto à Premier League, também conhecida como o melhor campeonato do mundo, não há frase melhor que: "volte logo, pois já estamos com saudades!". Enquanto isso, o certo é seguir acompanhando o que resta: playoffs de acesso da Championship, final da FA Cup e os times que permanecem vivos Na Liga dos Campeões e na Liga Europa.


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